Dia Mundial da Arquitetura 2026 | Projetar hoje, planear o amanhã

Num mundo em constante transformação, a um ritmo que muitas vezes ultrapassa a nossa capacidade de compreender e integrar a mudança, o tempo dedicado à reflexão torna-se cada vez mais valioso.

Na arquitetura, esse tempo tem consequências concretas.

Um edifício que começamos a pensar hoje poderá acompanhar várias gerações. Ao longo da sua vida mudarão as famílias, os modos de trabalhar, as tecnologias, o clima e as necessidades da sociedade.

Projetar um edifício exige, por isso, responder às necessidades do presente e, simultaneamente, antecipar as condições em que poderá ser habitado nas próximas décadas.

Esta diferença entre o tempo do projeto e o tempo de vida da arquitetura coloca uma responsabilidade particular sobre os arquitetos: tomar decisões duradouras e criar margem para um futuro que ainda não conhecemos inteiramente.

No Dia Mundial da Arquitetura 2026, esta reflexão torna-se particularmente relevante:

Como podemos projetar edifícios e espaços que continuem a fazer sentido daqui a vinte, cinquenta ou mais anos?

Pensar a arquitetura para além do edifício

Projetar o futuro exige olhar para além dos limites físicos de cada construção.

A visão de Norman Foster e o trabalho desenvolvido pelo Norman Foster Institute reforçam a importância de uma abordagem interdisciplinar às cidades, aproximando arquitetura, investigação, planeamento e gestão urbana.

Esta perspetiva amplia necessariamente a escala da reflexão.

A qualidade de uma habitação não depende apenas daquilo que acontece dentro das suas paredes. Depende também da rua onde se insere, da proximidade dos serviços, dos transportes, dos espaços públicos, da paisagem e das oportunidades de encontro.

Cada edifício participa num território e numa vida coletiva que também irão mudar ao longo do tempo.

Pensar arquitetura significa, por isso, compreender que aquilo que construímos hoje fará parte das cidades e paisagens de amanhã.

Preservar, transformar e prolongar a vida dos edifícios

O trabalho de Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal demonstra como a transformação de edifícios existentes pode melhorar profundamente as condições de habitação, ampliar os espaços e prolongar a vida útil das construções, preservando simultaneamente recursos e respeitando os seus habitantes.

Esta abordagem introduz uma pergunta fundamental antes de qualquer nova intervenção:

Que valor já existe neste lugar e como podemos dar-lhe continuidade?

Num contexto em que a sustentabilidade e a redução do impacto ambiental da construção são cada vez mais relevantes, a reabilitação de edifícios, a reutilização de estruturas e a adaptação a novos usos assumem um papel particularmente importante.

Nem sempre transformar significa substituir.

Por vezes, a arquitetura mais responsável começa precisamente por reconhecer aquilo que merece permanecer.

Aprender com o lugar antes de projetar

Lina Ghotmeh acrescenta outra dimensão através da sua ideia de «arqueologia do futuro», uma prática em que os novos gestos arquitetónicos partem da leitura dos vestígios do passado e da relação com a natureza, os materiais e a memória dos lugares.

Pensar o amanhã exige também compreender aquilo que já existia antes da nossa intervenção.

Na MJARC, esta forma de olhar para o território aproxima-se de um princípio que acompanha o nosso trabalho: cada projeto deve nascer das condições específicas do lugar onde será construído.

Topografia, orientação solar, vegetação, materiais, construções existentes, clima e modos de habitar constituem informação fundamental para a arquitetura.

Antes de desenhar, é necessário observar.

Antes de transformar, compreender.

O tempo como dimensão do projeto

Na MJARC, estas reflexões encontram expressão numa ideia fundamental: O tempo é também uma dimensão do projeto de arquitetura.

O tempo dedicado a compreender o lugar, ouvir quem irá utilizar o espaço, estudar alternativas e articular as diferentes disciplinas influencia diretamente a qualidade da resposta arquitetónica.

É durante esse processo que se ponderam decisões com efeitos sobre a durabilidade, o conforto, a manutenção, a eficiência energética e o impacto ambiental dos edifícios.

A implantação, a orientação solar, a organização dos espaços, a escolha dos materiais e a acessibilidade das instalações condicionam a forma como uma construção irá envelhecer.

Quando estas questões são pensadas em conjunto desde as primeiras fases do projeto, torna-se possível preparar o edifício para diferentes momentos da sua vida.

Projetar edifícios capazes de mudar

Uma casa poderá precisar de acolher uma família diferente, integrar um espaço de trabalho ou responder à mobilidade reduzida dos seus habitantes.

Um equipamento poderá receber novos serviços. Um edifício residencial poderá integrar novas formas de habitar. Uma construção poderá, daqui a algumas décadas, assumir uma função inteiramente diferente daquela para que foi inicialmente pensada. Projetar para a longevidade significa, por isso, criar arquitetura adaptável.

Espaços capazes de admitir reorganizações. Materiais duráveis e reparáveis. Sistemas técnicos acessíveis e passíveis de atualização. Estruturas cuja vida útil possa ultrapassar a função inicialmente prevista.

A capacidade de transformação não deve surgir apenas quando um edifício deixa de responder às necessidades existentes. Pode começar a ser pensada desde o primeiro momento do projeto.

Arquitetura sustentável perante as alterações climáticas

As alterações climáticas tornam esta capacidade de antecipação ainda mais importante.

Os edifícios projetados hoje irão enfrentar condições ambientais diferentes ao longo das próximas décadas.

A proteção solar, a ventilação natural, a eficiência energética, a gestão da água e a relação com a vegetação devem, por isso, ser entendidas como parte integrante da estratégia arquitetónica.

Mais do que acrescentar soluções tecnológicas posteriormente, importa pensar desde o início na forma como a arquitetura pode responder de maneira passiva às condições climáticas.

Orientação, sombra, inércia térmica, ventilação e relação com o solo podem reduzir necessidades energéticas e aumentar o conforto ao longo da vida do edifício.

É também neste sentido que arquitetura e sustentabilidade deixam de ser temas separados.

Projetar para o futuro significa inevitavelmente considerar os recursos que utilizamos hoje.

Tecnologia como ferramenta, não como resposta

A revolução tecnológica também está a alterar profundamente a forma como projetamos.

A modelação BIM, a simulação ambiental, a análise de dados e a inteligência artificial ampliam a capacidade de estudar alternativas, antecipar comportamentos e coordenar decisões.

Estas ferramentas permitem processar cada vez mais informação e fazê-lo cada vez mais depressa.

Mas a velocidade não substitui o julgamento.

Cabe ao arquiteto interpretar essa informação, integrar os contributos das várias especialidades e compreender as consequências de cada decisão na vida das pessoas e no território.

A luz. A privacidade. O conforto acústico. A acessibilidade. A relação com a paisagem. A possibilidade de encontro.

São dimensões que exigem atenção e sensibilidade e que continuam a determinar a forma como experienciamos a arquitetura.

Paradoxalmente, quanto mais rápidas se tornam as ferramentas, mais importante poderá tornar-se o tempo dedicado a pensar.

Dia Mundial da Arquitetura 2026: habitação como responsabilidade

O tema escolhido pela União Internacional dos Arquitetos para o Dia Mundial da Arquitetura 2026 — “Housing is a Human Right. Build It.” — coloca o direito à habitação no centro da reflexão sobre a profissão.

A data coincide com o Dia Mundial do Habitat das Nações Unidas, que em 2026 se centra no tema “Adequate Housing for All”.

Esta discussão recorda-nos que pensar a longevidade dos edifícios não é apenas uma questão ambiental ou construtiva.

É também uma questão social.

Significa considerar quem poderá habitar um edifício, quanto custará utilizá-lo e mantê-lo e até que ponto poderá acompanhar diferentes necessidades ao longo dos anos.

Significa pensar não apenas em criar mais habitação, mas em construir e transformar melhor aquilo que fará parte das cidades durante várias décadas.

A reutilização do parque edificado existente, a adaptação a novas necessidades e a procura de soluções sustentáveis e adequadas ao contexto tornam-se, assim, parte essencial da resposta arquitetónica contemporânea.

Projetar hoje para continuar a servir amanhã

Na MJARC, procuramos partir do lugar, das pessoas e das condições específicas de cada projeto para construir essa resposta.

Acreditamos que prolongar a vida dos edifícios, preservar estruturas sempre que isso seja possível e facilitar a sua adaptação pode reduzir a necessidade de demolição e substituição, contribuindo simultaneamente para preservar recursos e identidade.

Mas pensar o futuro não significa tentar prevê-lo em todos os seus detalhes.

Significa criar margem para que a arquitetura consiga responder à mudança.

O papel do arquiteto é pensar o agora com a consciência de que muitas das decisões tomadas hoje permanecerão muito para além da conclusão da obra.

Dedicar tempo a pensar hoje é criar condições para que a arquitetura continue a servir amanhã.

MJARC Arquitetos