Como a Arquitetura Pode Proteger a Natureza

Hoje celebra-se o Dia Mundial da Conservação da Natureza. E acreditamos que, em todos os setores (construção, indústria, atividade civil, entre tantos outros), há sempre a possibilidade de optar por melhores práticas. Nenhum setor está isento desta responsabilidade, e a arquitetura tem aqui um papel particular: cada projeto toca o solo, altera a paisagem, consome recursos e deixa uma marca duradoura no território.

Há uma ideia que atravessa todos os projetos da MJARC Arquitetos: um edifício não é verde por causa de uma grande decisão isolada. É ambientalmente responsável, ou não é, por causa de muitas pequenas decisões que, juntas, condicionam o todo.

A orientação do edifício, a articulação com o terreno, os materiais que escolhemos, a localização dos vãos envidraçados ou o caudal de uma torneira: é a soma destes gestos, aparentemente menores, que determina se um edifício protege ou desgasta o lugar onde se insere.

Chamamos “edifício sustentável”, com demasiada facilidade, a projetos que pouco fazem além de uma intenção de imagem. Por isso, preferimos falar em construção ambientalmente responsável: uma prática que se prova em decisões concretas.

É esta visão holística, em que o todo resulta de cada parte, que orienta a forma como a MJARC desenha, especifica e acompanha os seus projetos. É também o que torna útil olhar para sistemas internacionais de referência, como o LEED, não como um exercício de certificação, mas como um conjunto de princípios que ajudam a organizar o que já é, no fundo, bom senso construtivo.

A equipa da MJARC conta com técnicos com formação em LEED Green Associate, o que nos permite ler estes princípios com rigor técnico e aplicá-los, com ou sem certificação formal, em projetos que procuram um equilíbrio real entre construção e território.

Pequenos gestos, grandes consequências

Um dos aspetos mais interessantes destes sistemas de referência é que raramente pedem soluções extraordinárias. Pedem, sobretudo, atenção:

  • Atenção ao que já existe no terreno antes de se desenhar algo novo;

  • Atenção ao destino da água da chuva e ao ciclo de vida dos materiais;

  • Atenção à luz que um edifício projeta para o céu noturno;

  • Atenção à quantidade de água que uma torneira consome ao longo de um ano.

Nenhuma destas questões, isoladamente, define um projeto, mas todas juntas garantem um objetivo comum: reduzir o impacto ambiental dos edifícios e promover a conservação da natureza. É esta soma de decisões, muitas vezes invisíveis ao olhar comum, que separa um edifício que se impõe ao lugar de um edifício que aprende com ele.

Proteger o que já está lá

Antes de desenhar, é preciso observar. Perceber a topografia, a vegetação existente, os padrões de escoamento da água e os habitats que já ocupam aquele espaço. Um levantamento cuidado do terreno, que analisa clima, solos, vegetação e uso humano, não é uma formalidade técnica — é o primeiro gesto de respeito por um lugar.

Preservar ou restaurar o habitat, mesmo que parcialmente, é muitas vezes mais valioso do que qualquer intervenção paisagística posterior. O que já existe tem um valor ecológico que nenhum projeto novo replica com a mesma eficácia.

Legenda da Imagem 1
Saramagayo House, projetada como
extensão dos sucalcos do Vale do Douro
Legenda da Imagem 2
Cobertura ajardinada do projeto Douro Wood House
Legenda da Imagem 3
Estrutura suspensa, Douro Wood House

Deixar a água seguir o seu caminho

A forma como um projeto gere a água da chuva diz muito sobre a sua relação com o território. Em vez de impermeabilizar, é possível replicar o comportamento natural do solo através de bacias de biorretenção, pavimentos permeáveis, coberturas verdes e sistemas de captação e reutilização de água.

O mesmo raciocínio aplica-se ao consumo direto de água, dentro e fora do edifício. Reduzir a necessidade de rega através da escolha de espécies adaptadas ao clima local, ou instalar equipamento sanitário mais eficiente, são decisões discretas com impacto acumulado significativo ao longo da vida útil de um edifício.

Refrescar em vez de aquecer

As superfícies de um edifício — pavimentos, coberturas e fachadas — absorvem ou refletem calor consoante os materiais escolhidos. Esta decisão, tomada muitas vezes tarde no processo de especificação, tem um peso real no microclima envolvente, contribuindo para o chamado efeito de ilha de calor urbana, que eleva a temperatura em zonas densamente construídas.

Coberturas verdes, materiais de alta refletância solar, a plantação ou conservação de espécies arbóreas que promovem sombreamento adequado e a proteção de superfícies pavimentadas são formas simples de inverter esta tendência e devolver conforto térmico tanto ao edifício como ao espaço público que o rodeia.

Respeitar o noturno

É fácil esquecer que a luz artificial também é uma forma de poluição. O excesso de iluminação exterior mal orientada interfere com ecossistemas noturnos, com a visibilidade do céu e com o descanso de quem vive perto.

Escolher luminárias que direcionam a luz apenas para onde é necessária, e limitar a intensidade e o alcance da iluminação, é um gesto simples que respeita o noturno e os ecossistemas.

Medir para continuar a decidir bem

Um edifício ambientalmente responsável não termina na entrega da obra. A monitorização contínua de consumos — de água sobretudo — permite identificar desvios, otimizar sistemas e confirmar, com dados reais, se as decisões tomadas em projeto continuam a funcionar como previsto.

Medir é também uma forma de responsabilidade: comprometermo-nos com o desempenho de um edifício ao longo do tempo, e não apenas no momento em que é inaugurado.

Coerência em vez de grandes gestos

Nenhum destes princípios é, por si só, revolucionário. E é precisamente por isso que funcionam: não pedem grandes gestos arquitetónicos, pedem coerência. Pedem que cada decisão de projeto, por mais pequena que pareça, seja tomada com consciência do seu lugar num sistema maior.

 

É esta a leitura que a MJARC faz de referenciais como o LEED: não como uma lista de requisitos a cumprir, nem como um selo para colar num edifício, mas como uma forma organizada de pensar aquilo que já defendemos noutros projetos: que construir de forma ambientalmente responsável é, essencialmente, prestar atenção à água, ao solo, à luz, ao calor, às espécies que já ali vivem e às pessoas que vão habitar o espaço.

O todo de um edifício verde não nasce de uma ideia única, nem de uma etiqueta aplicada no fim do projeto. Nasce da soma de muitas decisões certas, tomadas uma a uma, ao longo de todo o processo, do primeiro esboço à última torneira instalada.

No Dia da Conservação da Natureza, deixamos este convite: seja na construção, na indústria ou em qualquer outro setor, há sempre uma prática melhor à escolha. Basta decidir prestar atenção. Se deseja desenvolver um projeto consciente e integrado no seu território, entre em contacto com a equipa da MJARC Arquitetos.

Perguntas frequentes sobre construção ambientalmente responsável

  • Porque é que pequenas decisões de projeto têm tanto impacto no desempenho ambiental de um edifício? Porque o desempenho de um edifício não resulta de uma única solução, mas da soma de muitas escolhas (orientação, materiais, gestão da água, iluminação, consumo) que se reforçam ou anulam mutuamente ao longo do tempo.
  • É preciso certificar um projeto para aplicar estes princípios? Não. Os princípios que sustentam sistemas como o LEED podem orientar decisões de projeto independentemente de haver ou não intenção de certificação formal. A certificação é uma via possível; a boa prática é sempre desejável.
  • Que tipo de decisões fazem mais diferença num projeto? Frequentemente, as que parecem menores: a escolha de espécies vegetais adaptadas ao clima, a gestão da água da chuva no local, a seleção de materiais que reduzem o efeito de ilha de calor, ou a orientação e intensidade da iluminação exterior.
  • Porque é que ter técnicos com formação certificada faz diferença num atelier de arquitetura? Porque permite ler estes princípios com rigor técnico e aplicá-los de forma fundamentada, seja para efeitos de certificação, seja simplesmente para garantir melhores decisões de projeto.