Aquecimento Global e Cidades: Como a Arquitetura Pode Responder ao Calor Urbano

Na MJARC Arquitetos acreditamos que as decisões de hoje ditam o futuro de amanhã. Um bom planeamento e soluções integradas não são um extra — são a condição indispensável para mitigar as alterações climáticas e garantir um futuro melhor para quem vai habitar, trabalhar e viver nos espaços que desenhamos.

O aquecimento global já não é uma previsão distante. Está presente na forma como habitamos as cidades: nas ruas demasiado quentes para caminhar, nas casas que acumulam calor durante a noite, nas praças sem sombra, no aumento do consumo energético e na dificuldade em permanecer no espaço público durante os períodos mais extremos.

Nos últimos dias, a Europa voltou a enfrentar episódios de calor intenso. Barcelona registou 40,7 ºC, a temperatura mais alta em 112 anos, enquanto outras zonas de Espanha atingiram valores próximos dos 44 ºC. No Reino Unido, foram emitidos alertas de saúde devido ao calor, com especial preocupação para crianças, idosos e pessoas vulneráveis. França, Itália, Irlanda e outras regiões europeias também enfrentaram avisos de temperatura elevada.

Estes episódios tornam evidente uma questão essencial: as cidades não aquecem apenas por causa da temperatura do ar; aquecem também pela forma como são construídas.

O excesso de asfalto, betão, superfícies impermeáveis, fachadas expostas, coberturas escuras e falta de vegetação contribui para o chamado efeito de ilha de calor urbana — um fenómeno em que zonas urbanizadas acumulam e libertam mais calor do que áreas naturais ou menos construídas.

Perante este cenário, a arquitetura não pode limitar-se a desenhar edifícios isolados. Tem de responder ao microclima, à sombra, ao solo, à água, à ventilação, aos materiais e à presença da natureza — a mesma lógica integrada que aplicamos em cada projeto de arquitetura e urbanismo.

 

O calor urbano já está a mudar a vida nas cidades

As vagas de calor deixaram de ser acontecimentos excecionais. Segundo dados do serviço europeu Copernicus, a Europa Ocidental registou o mês de junho mais quente de sempre, com temperaturas significativamente acima da média recente. O aumento da frequência e intensidade destes episódios está também associado a maior pressão sobre a saúde pública, risco de incêndios, desconforto noturno e maior consumo de energia.

O problema não se limita ao desconforto. Cidades demasiado quentes afetam:

  • A saúde, sobretudo de pessoas mais vulneráveis;

  • A mobilidade, porque caminhar ou esperar em espaços expostos se torna difícil;

  • A vida pública, quando praças e ruas deixam de ser lugares de permanência;

  • A habitação, especialmente em edifícios mal orientados ou pouco isolados;

  • A energia, pelo aumento da dependência de ar condicionado;

  • A economia urbana, porque comércio, turismo, transportes e serviços também são afetados.

Até infraestruturas de transporte estão a ser repensadas para cenários de calor extremo. A Eurostar, por exemplo, ajustou as especificações dos seus novos comboios para poderem operar em temperaturas até 55 ºC, antecipando verões europeus mais severos nas próximas décadas.

A lição para a arquitetura é clara: projetar com base no clima passado já não é suficiente. Casas, hotéis, escolas, ruas e espaços públicos devem ser pensados para um clima mais quente, mais instável e mais exigente.

 

grafico comparativo de uma cidade sem planeamento arquitetonico ocntra o clima e cidade com medidas contra o clima e as altas temperaturas implementadas

 

Mais ar condicionado não resolve o problema

A resposta imediata ao calor é, muitas vezes, instalar ou aumentar o uso de ar condicionado. Em alguns contextos, estes sistemas são necessários. Mas quando a cidade e os edifícios dependem apenas de soluções mecânicas, o problema é deslocado, não resolvido.

O ar condicionado arrefece o interior, mas aumenta o consumo energético e liberta calor para o exterior. Pode melhorar a experiência dentro de um edifício, mas contribuir para agravar o desconforto urbano lá fora.

Para a MJARC, o recurso a soluções passivas — que dispensam equipamento mecânico — é mandatório e deve ser sempre a primeira linha de resposta; o recurso a sistemas mecânicos deve ser a exceção, não a regra. A arquitetura deve atuar antes disso.

Um edifício bem desenhado pode reduzir a necessidade de arrefecimento através de decisões como:

  • Implantação adequada e orientação solar;

  • Proteção dos vãos e sombreamento exterior;

  • Ventilação natural e isolamento eficiente;

  • Escolha criteriosa de materiais e integração de vegetação;

  • Relação entre espaços interiores e exteriores.

O conforto térmico começa muito antes da instalação de equipamentos. Começa no desenho. Detalhámos estas estratégias, aplicadas à escala da habitação, no artigo Torne a sua casa eficiente e reduza o consumo energético.

Estratégias de resposta da arquitetura ao calor urbano

1. Sombra: uma infraestrutura essencial

Durante muito tempo, a sombra foi tratada como consequência: algo produzido por árvores, varandas, palas ou edifícios. Hoje, numa cidade mais quente, deve ser entendida como infraestrutura.

Uma rua sem sombra torna-se menos caminhável. Uma praça exposta perde capacidade de permanência. Uma fachada sem proteção aquece mais. Um percurso urbano sem árvores torna-se mais agressivo para quem o utiliza.

A arquitetura pode contribuir através de varandas e palas bem dimensionadas, galerias exteriores, pergulados e estruturas leves, fachadas com profundidade, pátios sombreados, árvores integradas no desenho urbano e transições cuidadas entre interior e exterior. A sombra não deve ser acrescentada no fim do projeto — deve fazer parte da sua lógica desde o início.

torre green view na covilha, foco nas palas desenhadas para provocar sombra e um melhor equilibrio de temperatura no interior do edificio

Projeto Torre Green View

2. Vegetação: mais do que decoração

A vegetação não é apenas um elemento paisagístico. Em contexto urbano, funciona como uma ferramenta de regulação térmica, ambiental e sensorial. Árvores, jardins, coberturas verdes, fachadas vegetais e áreas plantadas ajudam a criar sombra, reduzir a temperatura das superfícies, promover biodiversidade e melhorar o conforto exterior.

Um exemplo relevante é o programa OASIS, em Paris, que transforma pátios escolares em espaços mais frescos e resilientes. A estratégia passa por remover superfícies impermeáveis, introduzir vegetação, criar zonas de sombra e testar materiais alternativos para reduzir o efeito de ilha de calor. Estudos sobre o programa identificaram escolas com maior potencial de arrefecimento urbano e analisaram o desempenho térmico de pavimentos verdes, biossourçados, reciclados e refletivos em condições de vaga de calor.

Este exemplo mostra que até espaços aparentemente secundários — como pátios escolares, logradouros ou zonas exteriores de edifícios — podem tornar-se dispositivos climáticos.

Na nossa abordagem, a natureza não surge como um elemento acrescentado ao projeto. Surge como parte da sua estrutura. A relação com árvores existentes, topografia, solo, sombra, vistas e espécies vegetais deve informar a arquitetura desde a primeira leitura do lugar.

projeto saramagayo house com cobertura ajardinada
novo projeto mjarc arquitetos com jardim interior

3. O solo precisa de respirar

Grande parte do calor urbano está também ligada à forma como tratamos o solo. Superfícies impermeáveis acumulam calor, impedem a infiltração da água e aumentam a escorrência superficial em períodos de chuva intensa. Uma cidade mais preparada para o calor precisa de devolver permeabilidade ao território, através de:

  • Pavimentos drenantes e áreas ajardinadas;

  • Redução de superfícies impermeabilizadas e pátios permeáveis;

  • Coberturas verdes e sistemas de retenção e infiltração de água;

  • Maior continuidade entre espaços verdes.

Os chamados cool pavements — pavimentos pensados para reduzir a contribuição das superfícies urbanas para o aquecimento — incluem soluções refletivas, verdes, evaporativas, permeáveis ou com maior capacidade de gerir a temperatura superficial. A literatura técnica mostra, no entanto, que não existe uma solução universal: o desempenho depende do material, da radiação solar, da sombra, da manutenção e do contexto urbano.

cool paviments

Fonte: https://alemdainercia.com/2025/05/01/permeabilidade-do-pavimento-intertravado-beneficios-para-a-drenagem-urbana/

Isto é relevante para a arquitetura porque o pavimento não é neutro. A escolha entre asfalto, pedra, betão, saibro estabilizado, pavimento drenante ou área plantada influencia simultaneamente calor, drenagem, manutenção e experiência de uso.

4. Materiais, fachadas e coberturas também contam

Os materiais influenciam a forma como edifícios e espaços exteriores absorvem, refletem e libertam calor. Superfícies muito escuras ou expostas podem atingir temperaturas elevadas. Fachadas sem proteção solar aumentam ganhos térmicos. Coberturas mal resolvidas podem transformar-se em grandes superfícies de acumulação de calor.

Por isso, a escolha de materiais deve considerar comportamento térmico, durabilidade, manutenção, exposição solar, cor e refletância, inércia térmica, impacto ambiental e capacidade de envelhecer bem.

As coberturas verdes são uma solução relevante quando fazem sentido no projeto, porque podem contribuir para melhorar o desempenho térmico, reter água da chuva, aumentar biodiversidade e reduzir a temperatura superficial. Mas também exigem projeto técnico, manutenção, seleção adequada de espécies e integração com a estrutura do edifício.

Na MJARC, esta reflexão está presente em projetos onde a cobertura, a vegetação e a relação com o território não são apenas imagem, mas parte do modo como o edifício pertence ao lugar — princípios que também detalhamos no artigo sobre edifícios sustentáveis e os aspetos a considerar em arquitetura, onde exploramos controlo solar, controlo térmico e estratégias de arrefecimento passivo.

5. Ventilação natural e desenho passivo

A ventilação natural é uma das estratégias mais importantes para melhorar o conforto térmico, sobretudo quando integrada desde o início do projeto. A orientação dos vãos, a possibilidade de ventilação cruzada, a altura dos espaços, a existência de pátios, a proteção solar e a relação entre zonas frescas e zonas expostas podem alterar profundamente a forma como uma casa ou edifício responde ao calor.

Estratégias passivas relevantes incluem ventilação cruzada, pátios interiores, sombreamento exterior, proteção solar nos vãos, orientação adequada, isolamento eficiente, utilização de massa térmica, redução de ganhos solares excessivos e vegetação próxima dos espaços habitados.

Vista do pátio e da piscina enquadrada por um grande arco branco sustentado por pilares de pedra rústica. Dentro do arco, vê-se uma palmeira, a piscina e o exterior branco do edifício. Em primeiro plano, uma área de estar sombreada com uma mesa redonda e cadeiras de vime, criando uma sensação de retiro acolhedor.

Projeto Cicioso Boutique Hotel

 

Estas estratégias não eliminam necessariamente a necessidade de sistemas técnicos. Mas reduzem a dependência energética e melhoram a qualidade do ambiente interior.

 

Exemplos reais de adaptação urbana

Várias cidades já estão a testar soluções de adaptação climática:

  • Paris (França): Os pátios escolares OASIS mostram como espaços existentes podem ser transformados em ilhas de frescura através de vegetação, sombra, materiais alternativos e redução de superfícies impermeáveis.

  • Roterdão (Países Baixos): A adaptação climática tem sido trabalhada através de uma lógica “azul-verde”, com soluções como coberturas verdes, retenção de água, espaços públicos preparados para eventos extremos e integração entre gestão da água e desenho urbano. A cidade tem promovido telhados verdes e aumentou os requisitos de capacidade de armazenamento de água por metro quadrado em coberturas, reduzindo a pressão sobre as redes de drenagem durante chuva intensa.

Estes exemplos mostram que responder ao aquecimento global não é apenas arrefecer edifícios. É redesenhar a relação entre arquitetura, solo, água, sombra e natureza.

 

A perspetiva da MJARC Arquitetos

Acreditamos que a resposta ao aquecimento global começa na forma como se lê o lugar. Cada projeto deve compreender o clima, a topografia, a orientação solar, os ventos, a vegetação existente, a matéria e o modo como as pessoas irão habitar o espaço ao longo do tempo.

A sustentabilidade não deve ser tratada como camada final, certificação ou discurso isolado. Deve estar presente nas decisões fundamentais do projeto: onde implantar, como orientar, que solo preservar, que sombra criar, que materiais escolher e como permitir que o edifício pertença ao seu contexto. É esta abordagem integrada que sustenta também o nosso trabalho enquanto atelier com certificação LEED, que integra critérios técnicos claros e mensuráveis de mitigação do calor urbano nas fases mais iniciais de conceção de cada projeto.

Num tempo em que as cidades se tornam mais quentes, a arquitetura tem a responsabilidade de criar espaços mais confortáveis, mais permeáveis, mais verdes e mais preparados para o futuro. Construir com consciência climática é desenhar lugares que não apenas resistem ao calor, mas tornam a vida mais habitável.

Se está a pensar num projeto novo ou na reabilitação de um edifício existente e quer perceber como estas estratégias se podem aplicar ao seu caso concreto, contacte a nossa equipa.

 

Perguntas frequentes sobre calor urbano e arquitetura

  • O que é o efeito de ilha de calor urbana? É um fenómeno em que zonas urbanas acumulam mais calor do que áreas naturais ou menos construídas, devido à presença de materiais como asfalto e betão, à falta de vegetação, à impermeabilização do solo e à densidade construída.
  • A arquitetura pode reduzir o calor urbano? Sim. A arquitetura pode contribuir através de sombra, ventilação natural, materiais adequados, vegetação, coberturas verdes, pavimentos permeáveis e desenho bioclimático.
  • Porque é que algumas casas são demasiado quentes no verão? Muitas casas aquecem excessivamente devido a má orientação solar, falta de proteção nos vãos, isolamento insuficiente, ventilação limitada, materiais inadequados ou ausência de estratégias passivas de arrefecimento.
  • A vegetação ajuda mesmo a arrefecer os espaços? Sim. A vegetação cria sombra, reduz a temperatura das superfícies, melhora o conforto exterior, contribui para a biodiversidade e ajuda a regular a relação entre solo, água e temperatura.

 

Fontes e referências

  • The Guardian: Cobertura da vaga de calor na Europa (Barcelona, Espanha, Reino Unido, França, Itália e Irlanda) e dados do serviço Copernicus sobre o mês de junho mais quente de sempre na Europa Ocidental.
  • Financial Times: Notícias sobre a adaptação técnica dos novos comboios Eurostar a temperaturas de até 55 ºC.
  • Programa OASIS (Paris): Estudos sobre o comportamento térmico, microclimático e materiais alternativos em pátios escolares.
  • Revisão Técnica sobre Cool Pavements: Tecnologias de pavimentos refletores e permeáveis para mitigação do aquecimento urbano.
  • Estratégia de Roterdão: Relatórios sobre telhados verdes e normas de armazenamento e retenção de águas pluviais.