Quando a madeira pertence ao lugar

A construção em madeira voltou a ocupar um lugar central na reflexão sobre o futuro da arquitetura. O CLT — cross-laminated timber, ou madeira laminada cruzada — ampliou as possibilidades estruturais e de pré-fabricação, permitindo criar paredes, pavimentos e coberturas a partir de painéis produzidos com precisão. Mas a escolha de um material, por mais promissor que seja, não define por si só a qualidade ambiental ou arquitetónica de um edifício.

Para a MJARC, a pergunta começa antes da escolha do sistema construtivo: o que permite construir aqui sem apagar o que torna este lugar singular? A resposta depende da paisagem, do que já existe, do modo de habitar e da vida que se espera da construção. A madeira pode fazer parte dessa resposta — desde que seja escolhida com a mesma atenção dedicada ao lugar.

CLT: um sistema, muitas possibilidades

Os painéis de CLT são formados por camadas de madeira dispostas em direções cruzadas e unidas para criar elementos estruturais. A produção antecipada das peças pode trazer rigor à execução e reduzir o tempo de montagem no terreno. Exige também uma coordenação cuidada: aberturas, ligações e instalações devem ser compatibilizadas com o sistema desde as fases iniciais do projeto.

processo de construção do projeto douro wood house com paineis CLT

Essa precisão não obriga a repetir formas ou a adotar uma estética predefinida. O CLT pode dar origem a espaços de escalas e expressões muito diferentes. A madeira pode ficar visível no interior ou permanecer protegida por outros materiais; o exterior pode dialogar com uma floresta, uma rua ou um edifício preexistente. O sistema oferece possibilidades. A arquitetura decide como lhes dar sentido.

O mesmo princípio orienta a nossa reflexão sobre casas modulares e pré-fabricadas: produzir componentes fora da obra não significa produzir edifícios indiferentes ao local.

Baixo impacto: olhar para além do material

A madeira pode armazenar carbono durante a utilização do edifício e, quando provém de florestas geridas de forma responsável, integrar uma estratégia de construção de menor impacto. Ainda assim, chamar «sustentável» a um projeto apenas por utilizar madeira deixa questões essenciais por responder. De onde vem o material? Como foi transformado e transportado? Que outros materiais serão necessários? Quanto tempo poderá durar o edifício e o que acontecerá aos seus componentes no futuro?

A avaliação do ciclo de vida permite colocar estas decisões em relação. Considera os impactos dos materiais e da construção, a energia utilizada durante a ocupação, a manutenção e o fim de vida do edifício. É nesse conjunto — e perante alternativas que respondam às mesmas necessidades — que uma solução em madeira deve ser avaliada.

Por vezes, uma das decisões de menor impacto é preservar uma estrutura existente. Noutras situações, será reduzir a quantidade de material, simplificar a construção ou desenhar elementos que possam ser reparados e adaptados. O baixo impacto resulta da coerência entre escolhas, não de um único produto.

Eficiência e durabilidade são qualidades do conjunto

Uma estrutura em CLT não torna automaticamente uma casa eficiente. O conforto depende também do isolamento, das janelas, da estanquidade ao ar, da ventilação, das proteções solares e da orientação do edifício. Estes elementos têm de funcionar em conjunto e responder ao clima concreto do lugar.

A durabilidade pede igual atenção. A madeira deve ser protegida da exposição prolongada à água através de uma conceção adequada das coberturas, fachadas e ligações. Também durante a obra é importante planear a proteção dos elementos e evitar que a humidade fique retida nas soluções construtivas.

A eficiência, portanto, não se reconhece apenas na aparência natural de um espaço. Revela-se na forma como o edifício mantém o conforto, envelhece e continua a responder às necessidades de quem o habita.

O mesmo material, respostas diferentes

Alguns edifícios internacionais mostram como o CLT pode servir intenções arquitetónicas distintas.

edificio sara kulturhus projetado pelos white arkitkter utilizando paineis CLT

fonte: https://whitearkitekter.com/project/sara-cultural-centre/

No Sara Cultural Centre, em Skellefteå, na Suécia, a White Arkitekter recorreu ao CLT em diferentes partes de um conjunto que reúne espaços culturais e um hotel. A escolha da madeira prolonga a tradição construtiva da cidade e estabelece uma ligação com o conhecimento e a indústria florestal da região. A tecnologia contemporânea ganha, assim, uma expressão ligada à cultura material do lugar.

 

edificio Em Dalston Works, Londres, do atelier Waugh Thistleton Architects, utilizando clt

fonte: https://www.dezeen.com/2023/03/23/dalston-works-waugh-thistleton-architects-timber-revolution/

Em Dalston Works, Londres, o atelier Waugh Thistleton Architects utilizou CLT nas paredes estruturais, pavimentos e escadas de um edifício de habitação. No exterior, a escala variável dos volumes e a fachada em tijolo dialogam com as construções do bairro. A estrutura em madeira não impõe uma imagem única: permite uma resposta própria ao contexto urbano.

 

Brock Commons Tallwood House, edificio de residencias universitárias construido em clt em vancouver, canada

fonte: https://livinglabs.ubc.ca/projects/brock-commons-tallwood-house

Já a Brock Commons Tallwood House, no Canadá, combina pavimentos em CLT com pilares de madeira engenheirada e núcleos de betão. É um exemplo de solução híbrida, na qual cada material responde a exigências específicas do edifício.

Estes projetos partilham um material, mas não uma linguagem. É a relação entre sistema, programa e lugar que define a personalidade de cada um.

Preservar o lugar também é uma decisão construtiva

Projetar com madeira não implica fazer uma casa parecer uma floresta. A pertença a um lugar pode nascer de escolhas menos imediatas: manter as árvores existentes, acompanhar o relevo, preservar a circulação natural da água ou orientar os espaços para uma determinada luz.

douro wood house, projeto de arquitetura mjarc arquitetos vencedor de premios internacionais

Essas condições têm consequências concretas no projeto. Podem definir onde a casa toca o solo, a altura que assume na paisagem, os percursos entre interior e exterior e a forma como se vive cada divisão. Quando influenciam a arquitetura desde o início, deixam de ser apenas características do terreno: tornam-se parte da identidade do edifício.

Na Douro Wood House, a construção modular em madeira foi articulada com essa leitura. A casa eleva-se do solo para evitar alterações significativas da topografia; aberturas na cobertura preservam as árvores existentes; a fachada e a cobertura ajardinada estabelecem uma relação material e visual com a envolvente. A identidade do projeto nasce da forma como estas decisões trabalham em conjunto, mais do que do sistema construtivo isolado.

Noutro terreno, a resposta teria de ser diferente. É essa capacidade de escutar e variar que permite criar projetos autênticos: espaços que correspondem às pessoas que os habitam e que não poderiam simplesmente ser repetidos noutro lugar.

A matéria ao serviço da arquitetura

O CLT abre possibilidades relevantes, exploradas também no nosso artigo sobre painéis CLT e construção em madeira. O seu valor, porém, não está numa imagem reconhecível nem numa resposta universal.

Construir com madeira é decidir de onde vem a matéria, como será utilizada, protegida e mantida — e de que forma pode contribuir para um edifício duradouro. A madeira não desenha sozinha. É a arquitetura que lhe permite responder a um lugar e criar algo que só ali poderia existir.

Perguntas frequentes

O que distingue o CLT de outras formas de construção em madeira?

O CLT é um produto estrutural composto por camadas de madeira cruzadas que formam painéis. A construção em madeira é uma categoria mais ampla, que inclui diferentes produtos, estruturas e métodos de execução.

Construir em CLT garante uma menor pegada ambiental?

Não por si só. A origem da madeira, o fabrico, o transporte, os restantes materiais e a durabilidade da solução influenciam o resultado. A comparação entre alternativas deve considerar o edifício e o seu ciclo de vida, não apenas a estrutura.

Uma casa em madeira pode ter uma linguagem própria?

Sim. O sistema construtivo não determina uma forma única. A implantação, a escala, a organização dos espaços, a luz e a combinação de materiais permitem desenvolver uma resposta específica para cada lugar e para quem o habita.

Fontes consultadas

Comissão Europeia — Abordagens de ciclo de vida para a descarbonização dos edifícios

UNECE/FAO — Circularity Concepts in Wood Construction

US Forest Service — Conceção da envolvente em edifícios de CLT

US Forest Service — Humidade e durabilidade do CLT

White Arkitekter — Sara Cultural Centre

Waugh Thistleton Architects — Dalston Works

University of British Columbia — Brock Commons Tallwood House